segunda-feira, dezembro 31, 2012

Fechar d'ano


Com este fechar do ano (essa invenção do homem que permite imaginar, a cada 365 dias, um novo recomeço), fecha-se também um ciclo da minha existência. Até há relativamente pouco tempo eu ainda era o menino de alguém, agora sou apenas eu, o menino de ninguém. Talvez seja meu ou remotamente das pessoas que alegraram os quadros da minha já longa vida.
Nesta vida sem rumo em que a minha existência prossegue, é difícil fazer balanços, até porque a um balanço maior podemos nem resistir.  Daí que o melhor mesmo seja ficar, ficar por ficar, esperar. Pode ser que os ventos nos levem a um bom porto ou nos esmaguem em qualquer costa rochosa...nesta imensa sem vontade em que se transformou a minha existência, resta a suprema felicidade de ter valido a pena...existir!

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Dias sem fim

 
O tempo vai passando,
a vida foi escurecendo,
a solidão invade-me,
a saudade consome-me.
 
Tudo perdeu brilho
neste meu trilho
e a cada anoitecer
sinto-me vencer,
na penumbra do cinzento,
no alvorecer pardacento.
É preciso recomeçar
mas não sei por onde agarrar,
talvez sorrir,talvez gritar,
ficar quieto ou caminhar
 
E vou ficando,ficando
nestes dias de fim!

Há um ano




Há um ano que não escrevo aqui nada. Porém, como amigo fiável,este sítio manteve-se à minha espera e esta pode ser uma visita esporádica, num momento de solidão e questão.
Num ano, muita coisa mudou, ou então apenas seguiu o curso normal da existência. Não sei, eis a questão, a magna questão!
Sei apenas dos horizontes que se vão fechando, da vida que se foi esgotando,do tempo em que fui sonhando e a partir desse sonho,vivi. Entre sofrimento e dor,entre paz e amor, entre o tudo e o nada,entre o partir e o aqui estou, alguma coisa ficou.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Eurovisão 1966


Por estes anos, as professoras estavam deslocadas pelas mais reconditas aldeias, geralmente em inicio de carreira eram raparigas com uma mundividencia muito para além das comunidades onde eram colocadas, o que não impedia os galãs rurais de se "fazerem ao piso".
Nos meus tempos de instruçaõ primária apareceu por lá um "fangante", qual negro do rádio de pilhas, com um transistor em que esta música corria...claro só mais tarde percebi a mensagem implícita.

Bordaduras (6)

 Ser feliz (viver)

A longevidade, a segurança ou mesmo o conforto não são sinónimos de felicidade, quando muito são factores de satisfação. A felicidade não é um estado de permanência, antes um momento fugaz pelo qual muitas vezes passamos e não lhe damos a mínima importância. Por alguma razão tanta gente reclama o direito de ser feliz, mesmo que não saibam reconhecer essa felicidade e portanto tanto lhes faz: reclamam, mas podiam chorar

Se a segurança e o conforto de uma longa vida fossem sinónimo de felicidade então os animais em cativeiro seriam muito “felizes” porque nada disto lhes falta. Por isso mesmo a segurança, o conforto da rotina também não podem fazer um homem feliz. Todos aqueles que acordam e sabem com certeza como vai ser o seu dia, estão já meios-mortos e quanto maior for a certeza maior é a probabilidade de apenas já respirarem assistidamente.




quinta-feira, novembro 03, 2011

Correntezas (10)


Escrever

 
Recriando sentimentos,

que me brotam da alma

desalinhadamente

Sobre um papel

construo frases

frias, quentes....

amargas, doces...

desfazendo ilusões.

Libertando sentidos...

E posso ser tudo...

um pássaro, uma folha,

um amor, uma dor.

Desbravo caminhos

reparo veredas

desfaço-me

refaço-me

com a ponta dos dedos

E como escrevo

as letras faíscam

as palavras são chamas

que me incendeiam

e desfazem na cinza

que o vento vai levando

Cheias de Lisboa 1967


Cheias de Lisboa 1967

Talvez a primeira tragédia de que tomei consciência. Apesar das notícias sempre negadas havia qualquer coisa que nos angustiava e pela primeira vez teria tido a noção de vida e morte.


Margens (20)


Licença de condução de velocípedes

A minha primeira licença! Justamente habilitva-me a conduzir bicicletas a pedal!! Não bastavam as esfoladelas para aprender a equilibrar-me em cima das ditas, também precisava de licença para as montar!!!

Margens (19)


A primeira comunhão

Num país cujas tradições católicas muitas vezes se sobrepunham á vontade da família, ou seja fazia-se porque todos faziam, este era o corolário de anos de catequização em que o prior era visita assídua da escola, apontando os caminhos da fé.
Como não podia deixar de ser ei-lo aqui pujante na foto: Francisco Saramago. Acompanhou-me nas mais variadas fases da minha vida e por isso foi marcante para mim. Duro como só os bons sabem ser. Ficou famosa por aqui a sua frase:"para mim vale mais um homem cem por cento homem,que um católico de meia tigela".

Margens (18)

Escola 2
Escola Comercial de Rio Maior
Estabelecimento de ensino resultante da vontade dos comerciantes riomaiorenses, essencialmente a pensar nas “elites da vila”, acabou por ser o meu primeiro contacto com uma realidade completamente desconhecida e inesperadamente agreste. O choque foi enorme e de aluno brilhante, porque usava brilhantina julgo eu, passei directamente a sofrível, para não dizer inapto, que vinha da aldeia. Tempos difíceis.

Bordaduras (5)

Sulcos

Neste rio que me sulca correm águas límpidas e tranquilas, também águas turvas e revoltas. Há quem goste de mim quando estou calmo e sereno, mas também quem goste de me contemplar quando galgo as margens e levo tudo por diante. Há quem me navegue para alcançar a outra margem e também quem prefira ficar em terra firme. Há quem em mim busque a paz de uma barragem e quem procure a adrenalina das quedas d’água. Provavelmente há quem goste de escutar as melodias que nas minhas margens trinam, mas há também quem aprecie o meu silêncio. Mas deste rio que em mim corre, que as margens aprisionam e que a foz libertará, algo vai ficando…há quem entenda e quem não queira saber…

segunda-feira, outubro 03, 2011

Margens (17)

 Escola 1

Embora sujeito às agruras dos tempos modernos, foi neste edifício que aprendi as primeiras letras. Aparte o "gosto" da pintura e a retirada da placa que dizia que tinha sido construído pelo governo da Ditadura Nacional (como se fossem os abrilistas que o tivessem construído), o edifício mantém a sua traça original..desde o portão do recreio até às janelas onde "posavam" os orelhas de burro. Hoje alberga um posto médico,sem médico..

sexta-feira, setembro 30, 2011

Margens (16)

A minha escola
Alunos

Ao tempo éramos trinta e oito no edifício da velha escola distribuídos por quatro classes. Uma só professora, sem auxiliares, nem "escola segura" e seguramente estávamos bem. Volta não volta um ou outro ficava uma manhã ou uma tarde a ver passar os carros com umas orelhas de papel enormes. Havia a cana da Índia e menina de cinco olhos e tudo prosseguia na paz do campo...sob o olhar atento do Salazar e do Carmona.


Margens (15)

As primeiras letras

Eram 2,5 km percorridos a pé. Livros numa sacola, almoço numa outra e lá íamos com a chuva, o frio, o calor, a ventania por companheiros. Criados no mato, era também a nossa primeira sociabilização, ou em linguagem do tempo, aprender a ser homem.

Eusébio


Eusébio
O pantera negra
O ídolo do futebol naqueles tempos ou melhor de todos os tempos. Os tempos onde o "amor à camisola" não era palavra vã. Eusébio o melhor de todos

quinta-feira, setembro 22, 2011

Margens (14)

Matança do porco

Governo da casa para o ano inteiro, o porco era preponderante nos meios rurais. Dia geralmente de festa onde se reunia a familia mais chegada e tudo ajudava no aproveitamento do animal. Nada se perdia,tudo se aproveitava. Sem frigorificos nem arcas congeladoras , o sal era o conservante natural. Não havia também asaes, nem outras merdas para além da "guarda da Marmeleira" mas que se dedicava mais a multar cabreiros e a fiscalizar carroceiros. Assim os porcos iam morrendo e o povo sobrevivendo...por entre alegrias e tristezas

Correntezas (9)


Em mim

Há em mim um rio que corre

Uma corrente que me arrasta

Uma barragem que me enlaça

Uma montanha que me enfrenta

Há em mim a fragilidade da vida

Um abismo que me tenta

Um barco que me navega

Um escolho que me atormenta

Há em mim a força da água

O destemor do horizonte

O atravessar de uma ponte

O desejo de uma fonte

Há em mim um brotar de energia

A nascente da alegria

A correr pelo dia

A noite que me apazigua

Há em mim uma foz que me anima

Que me faz galgar

Que não me deixa parar

Que me promete chegar

Há em mim um rio que corre…


Foto: Rio Zêzere a jusante da barragem de Castelo de Bode